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O SOM DA MEMÓRIA – Viagem de trem

Publicado em: 05/06/2018
 

Uma das coisas que mais marcaram minha infância foi ver o trem chegar na estação, o movimento na plataforma – entre viajantes, vendedores e trabalhadores. Não era um trem qualquer, cargueiro, como acontece hoje quando só leva grãos das lavouras da região, transporta petróleo ou outros produtos nos seus vagões. Mas, um trem de passageiros, e melhor, puxado pela “Maria Fumaça”(nome popular da máquina a vapor que puxava o comboio), a locomotiva.

Essa ligação tão forte com a “Maria Fumaça” é facilmente explicada. Meu pai era guarda-freios, depois operador de telégrafo, na estação ferroviária de Patrocínio, Minas. Eu vivia na estação. Não só acompanhando meu pai, mas pelo verdadeiro fascínio que tinha com aquelas máquinas maravilhosas, aquele som, o vapor que expelia e as pessoas trabalhando no local: tudo me atraia.

Eu morava a uns cinco quarteirões da estação. Como não poderia ser diferente, tinha vários amigos e entre nossas atividades infantis, estava brincar na região. Havia um deposito de palha de arroz a área externa da máquina de benefício(pertencia a uma senhor chamado Benedito Fiaz), onde a gente mergulhava – literalmente. Era perigoso, porque a palha de arroz é de combustão muito fácil, mas nós, inclusive os filhos do “seo” Benedito – Mauro e Jorge – não dávamos conta disso.

Também brincávamos nos pés de jatobá que existiam no pasto, atrás do Hotel Ferroviário – cujo garoto da casa – Adélio(o Sula) – também era membro da turma. Uma das diversões preferidas da turma era puxar uma trava de segurança dos freios dos vagões que ficavam estacionados no pátio da estação e ouvir o barulho – tchiiiiiiiii. Ficar sempre atento para que “seo” Joãozinho Frocelo(agente da estação que morava no local, onde havia varias casas dos funcionários) não percebesse. E eu era o mais cuidadoso nisso, pois, com o pai trabalhando na estação, se alguém contasse daquelas molecagens, era certeza de que apanharia depois.

trem-estacao

A plataforma da estação de Patrocínio era uma resumo da cidade. Gente indo e vindo. Umas pessoas chorando, outras sorrindo. Gritos de crianças. Os vendedores ambulantes – alguns deles, garotos de calças curtas, um pouco mais velhos que eu – ofereciam de tudo: laranjas, doces, quitandas(biscoitos, pães de queijos, roscas), café(no bule), tudo caseiro e em cestas de bambus, cujas alças iam passadas nos braços.

O agente da estação parecia um militar: de roupa azul, um quebe(também azul) na cabeça e dando ordens – principalmente para nós, crianças, por questões de segurança. Quando o trem partia, era ele quem dava as ordens, segurando um lampião diferente(dentro ficava a lapada de querosene e ele tinha quatro lados – um vermelho, um verde, um amarelo e um branco – por onde se comunicava com o maquinista na saída do trem.

Apesar de viver aquela realidade, eu viajei pouco de trem, que me lembre. Fui umas três ou quatro vezes a Ibiá, MG, (onde nasci) que era a sede da oficina de trens e uma ou duas vezes a Belo Horizonte.

Lembro de vagamente de uma dessas viagens. Tinha uns seis, sete anos de idade. Acho que fomos de Patrocínio a Belo Horizonte e voltamos dias depois. Não sei se meu pai tinha regalias na Rede Mineira de Viação(RMV) por ser funcionário, mas o certo é que viajamos de primeira classe e no vagão-dormitório.

Minha irmã e eu tínhamos liberdade de andar pelo trem e o local que mais gostávamos de ficar era o vagão-restaurante. Acho que meu pai estava trabalhando naquela viagem, pois me lembro pouco dele no trem. Minha mãe ia observando a paisagem rural às vezes urbana, sentada naqueles bancos altos que pareciam recheados e (acho) de couro. Eu e minha irmã Joana Darc, tratados com deferência pelos funcionários do vagão-restaurante – onde os poucos passageiros faziam refeições, bebiam, liam e conversavam.

Um dos funcionários levou-nos à varanda e observamos a paisagem que passava, enquanto o trem ia deixando para traz fazendas. A maioria com animais e poucas lavouras, como vemos hoje por todos os lados. Uma coisa me chamava atenção: a quantidade de bananais e pequenas lavouras de cana-de-açúcar. Naquela época em quase todas as propriedades rurais esses dois tipos de plantação eram muito comuns em Minas, pelo menos no roteiro do trem.

Fomos, ficamos alguns dias, retornamos. Apesar de não saber exatamente quando, nem porque viajamos, considero, ainda hoje, aquela entre as melhores viagens de minha vida. Afinal, foi uma aventura.

trem-paisagem

O trem ia serpenteando as paisagens rurais e bucólicas, para a nossa admiração

(Redehoje)