O papel das serpentes no equilíbrio da natureza

Publicado em: 22/07/2017
 

Serpentes ou cobras, como são popularmente conhecidas, são répteis, animais de sangue frio e com o corpo coberto por escamas. Podem variar bastante de tamanho e forma, desde poucos centímetros (Leptotyphlops sp.) a mais de 10 metros (Python sp. da África e Ásia e Eunectes sp. as sucuris do Norte do Brasil). Em comum, todas as cobras não possuem patas, a maior parte tem hábitos noturnos, vivem solitárias e ocultas, não são agressivas e poucas possuem peçonha (veneno). Ocorrem em todo o mundo, exceto nos polos pois não toleram o frio extremo.

 

Uma cobrinha-cipó (Chironius sp.). Linda e inofensiva.

Uma cobrinha-cipó (Chironius sp.). Linda e inofensiva.

Na natureza fazem parte da grande cadeia alimentar natural, tanto como presa como predadores. Em sua maior parte estão no topo dessa cadeia alimentar. Portanto com um pequeno desfalque em sua população podemos ver uma superpopulação de espécies que seriam consumidos por elas.

Se alimentam, por exemplo, de roedores em geral, que, sendo bastante prolíferos se distribuem com rapidez pelo ambiente. Os roedores consomem muito e se aproveitam dos rejeitos de alimentos descartados por humanos e, com uma população aumentando, o ambiente não suportaria e seriam obrigados a invadir outros ambientes causando um verdadeiro desequilíbrio e incômodo aos humanos que vivem próximos daquela região. Por isso é importante o controle da população de ratos e outras presas pelas cobras.

A cobra-lisa (Liophis miliaris) é semi-aquática, pequena e inofensiva. Solta um líquido com cheiro ruim para se defender.

A cobra-lisa (Liophis miliaris) é semi-aquática, pequena e inofensiva. Solta um líquido com cheiro ruim para se defender.

As serpentes podem ter vários tipos de alimentação, dependendo de cada espécie. São carnívoras obrigatórias e em sua dieta podemos ter desde peixes, caramujos, lesmas, aves, ovos, pequenos mamíferos, anfíbios, lagartos e até mesmo outras cobras. A Muçurana (Clelia clelia) se alimenta de cobras com peçonha como as Jararacas (Bothrops jararaca). Os predadores mais comuns podem ser mamíferos como quati (Nasua nasua), gambá (Didelphis aurita) e o mão pelada (Procyon concrivorus) e aves como garças (Ardea sp.), gavião carcará (Polyborus plancus) e o gavião-pombo-pequeno (Leucopternis lacernulata).

A cobra-espada (Tomodon dorsatus) é pequena e inofensiva. Se alimenta de invertebrados.

A cobra-espada (Tomodon dorsatus) é pequena e inofensiva. Se alimenta de invertebrados.

Muitas lendas e crendices cercam o mundo das serpentes. “Animais gigantes com mais de 40 metros, como a Anaconda”… sendo que a maior serpente já registrada tinha pouco mais de 10 metros. Alguns dizem que esse animais “podem perseguir você”. Na verdade, o animal sempre vai tentar fugir, mas se sentir extremamente ameaçada, a cobra pode mesmo tentar investir contra um humano, apenas para se defender. Se houver espaço para fuga, logo ela irá procurar um esconderijo. Outras lendas falam que cobras como jiboias (Boa constrictor) ou sucuris (Eunectes sp.) “podem soltar bafos ou babas que deixam manchas ou envenenam”. Jibóias e sucuris não são venenosas e muito menos “babam”. Elas tem saliva como nós, que podem no máximo provocar reações alérgicas, e daí essa lenda pode ter sido criada.

Uma cobra-lisa jovem (Liophis miliaris). Bem pequena, repare o tamanho dos líquens ao seu lado.

Uma cobra-lisa jovem (Liophis miliaris). Bem pequena, repare o tamanho dos líquens ao seu lado.

O Brasil é considerado o país do mundo com a maior diversidade de serpentes, e são conhecidas hoje 386 espécies diferentes aqui, das 3 mil espécies do mundo. Somente 15% das serpentes brasileiras (57 espécies) são peçonhentas. E apenas 10 dessas habitam o estado do Rio de Janeiro. Todas são extremamente tímidas ao ambiente antrópico, preferindo matas e locais mais ermos como matas preservadas e interiores de mata, sendo raros os encontros com humanos. Ao menor sinal de risco elas fogem para se esconder em meio a folhas e galhos ou entre pedras. A maioria dos acidentes com serpentes acontece por imprudência ou imperícia do humano ao tentar manejar estes animais e em áreas rurais. Hoje em dia poucos acidentes são registrados e há menos acidentes fatais devido a melhores tratamentos médicos disponíveis e a difusão de ações de educação ambiental. A educação e informação é a melhor ação para convivermos em harmonia com os animais, principalmente quando atinge crianças.

Cobra-coral (Micrurus coralinus). Venenosa, mas é muito pequena e sua cabeça pequena a impede de morder algo maior que a pontinha de seu dedo mindinho. Portanto, não coloque a mão nela. Apenas isso.

Cobra-coral (Micrurus coralinus). Venenosa, mas é tão pequena que é impossível morder algo maior que a pontinha de um dedo mindinho humano. Portanto, não coloque a mão nela. Apenas isso.

No Jardim Botânico são raríssimos os encontros com serpentes. Em sua maioria são encontros com jiboias (Boa constrictor), que podem ser grandes, mas são animais lentos e inofensivos se não forem manejados. Mantendo eles onde estão e não se aproximando, em poucos minutos somem de vista e muitas vezes nem são percebidos pelos visitantes em suas caminhadas. Poucas espécies venenosas foram encontradas nas proximidades: cobra-coral (Micrurus sp.) e  jararacas (Bothrops sp.), ambas em áreas pouco visitadas na mata secundária acima do arboreto do Jardim, próximo ao “caminho da Mata Atlântica”.

Em suma, serpentes são mal vistas pela sociedade, devido ao estigma criado em tempos antigos. Mesmo na religião temos o exemplo da bíblia, onde a cobra é colocada como animal vil e manipulador. Ou na história da morte de Cleópatra mordida por uma Naja. E lendas e crendices passadas de geração em geração, principalmente no interior. Mas são animais fascinantes, não são perigosos de forma alguma desde que não sejam molestadas ou incomodadas.

Jararacuçu (Bothrops jararscussu). Espécie muito rara no Jardim.

Jararacuçu (Bothrops jararacussu). Espécie muito rara no Jardim.

Caso encontre alguma serpente, aí vão umas dicas:

  • Se estiver fazendo uma trilha, observe atentamente onde pisa, você está na casa dela e pode estar atravessando o caminho dela;
  • Não se aproxime e nunca tente mexer em serpentes, mesmo com galhos;
  • Não tente manipular esse animal sem conhecimento para isso;
  • Se ela estiver em movimento, deixe-a seguir seu caminho, não passe na frente, somente espere ou dê meia volta;
  • Em caso de acidente, ligue para o 192 e siga as instruções, não aplique nada nem faça torniquetes pois pode agravar a situação;
  • Se estiver no Jardim Botânico do Rio, apenas chame um guarda, ele irá nos contatar.

(projetofauna)